quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Cá de cima


De repente a gente apaga como rastro de avião no céu. Percebe que entendeu o que era impossível, que aceitou o que aconteceu e assimilou o passado digerido no passo de quem já foi.
Quando olho para trás, penso não ter sombra, é porque o meu passado não se parece mais comigo. Chamaria de pesadelo, se do alto do precipício não tivesse descoberto minhas asas. Asas são sempre pesadas e doem quando rasgam a carne, crescem calcificadas, mas é o peso mais leve da vida.
Quando escolho não voar, ainda peco tentando proteger os que aprecio por questões de sangue. Mas logo me arrependo. Não me arrependo mais pelos meus arrependimentos, mas preferia que arrependimentos fossem premunições.
Voar me deixa ver a vida bem de longe, bem de leve, bem de breve... Voar me ensina a não ter medo da tempestade, a querer partir sozinha e me ensina também a voltar... É indescritível a sensação de planar... E quando pegamos uma queda de braço com o vento então, é inexplicável.
De repente a gente cansa de tentar equilibrar a balança. E permite que as coisas pendam mais para um lado do que para o outro, mas sem dor... É como um mar que não balança de acordo com o sopro do vento, a onda brava zomba da brisa e a tempestade corre atrás da onda solta. Mas todos se divertem esculpindo cada segundo do tempo, antes que a vida nos leve.

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